Com apoio popular, 'Geladotecas' resistem em Olinda

Sendo bem recebido em alguns locais e sofrendo avarias e até mesmo roubos em outros, projeto criado há três anos tem como função incentivar leituras

por Adige Silva qui, 06/12/2018 - 15:12
Júlio Gomes/LeiaJá Imagens As Geladotecas são fixadas em pontos estratégicos, onde os moradores possam pegar e doar livros. Júlio Gomes/LeiaJá Imagens

Criado há três anos, o projeto das Geladotecas tem como objetivo levar conhecimento às comunidades da cidade de Olinda. A proposta é simples: uma geladeira que não funciona é revitalizada e colocada em pontos estratégicos da cidade. O diferencial do projeto é que, no lugar de alimentos, as pessoas podem saciar a fome por conhecimento através dos livros. A iniciativa foi idealizada pelo Coletivo Beco Cultural, grupo formado por professores, artistas, estudantes e profissionais liberais. Unidos por um só fim, hoje, eles comemoram o apoio recebido da população.

“Para que isso possa surtir efeito tem que fazer parte e ser incorporada na paisagem da comunidade. E é o que está acontecendo na maioria das Geladotecas. Esta geladeira da praça da bíblia [localizada no bairro de Ouro Preto, Olinda] já foi incorporada e é administrada pela própria população. Eles trazem os livros, colocam no lugar, arrumam e fazem a gestão do material”, fala com entusiasmo Israel Vasconcelos, um dos idealizadores do projeto.

Apesar do sucesso em certas localidades, o projeto não vingou em outros pontos. Geladeiras que foram colocadas no Sítio Histórico de Olinda, por exemplo, foram pouco valorizadas e até recolhidas por carroceiros. Mas isso não o desanima o obstinado Israel, que reconhece o poder da educação como mudança social. “O processo educativo é isso, a gente não visa só educar uma pessoa. Queremos educar uma geração. E para isso, você tem que insistir. Demanda tempo. Três anos de educação não é nada”, enfatiza.

José Hélder Melo, de 54 anos, mora nas imediações da Praça da Bíblia e é um grande entusiasta do projeto. É normal flagrá-lo compenetrado folheando algumas revistas ou livros. Para ele, o projeto facilita e muito a vida dos estudantes e dos leitores assíduos, já que a biblioteca pública mais próxima fica a cerca de 4 km de distância. “É mais conhecimento, em lugar fácil, como uma parada de ônibus. Você repara numa cidade grande como Olinda só tem uma biblioteca e fica no centro histórico”, denuncia.

Para Israel, esses depoimentos são motivadores para dar conta da dupla rotina que tem. Além de voluntário ativo do Coletivo Beco Cultural, o homem de 35 anos é professor de educação especial para alunos com deficiência visual, no município de Jaboatão dos Guararapes, também na Região Metropolitana do Recife. “Você fica motivado ao ver uma criança pegando um livro infantil ou escuta de uma universitária que concluiu seu TCC a partir de um livro que pegou na Geladoteca. Todo esse trabalho se torna muito gratificante”, exalta o educador.

Durante a conversa com Israel, um flagrante do bem. O cobrador de um ônibus que seguiria destino ao terminal de Ouro Preto, onde existe outra Geladoteca, desceu do coletivo e começou a separar alguns exemplares que estavam ali. Questionado sobre o que faria com os livros, Aurir Afonso justificou: “vou levar para a biblioteca do terminal. Lá a gente ajeita e fica de olho”. Segundo o profissional, algumas pessoas pegam os livros com objetivo de vender em mercados informais, em uma atitude que ele trata como “vergonhosa”.

Projeção de voos mais altos

Com o sucesso do projeto das Geladotecas, o Coletivo Beco Cultural ganhou um novo status. Agora, o coletivo tornou-se uma Organização Não Governamental (ONG). Com isso, ganharam uma nova sede. O Centro Social Urbano, que estava em desuso, foi cedido ao Coletivo pela Secretaria de Administração de Pernambuco. O espaço recebeu uma biblioteca comunitária e conta com ações esportivas e de cunho cultural.

Especialmente para Israel, a disponibilização do espaço veio a calhar. Isso porque, sem ter onde deixar os livros doados, o educador guardava todos em sua própria residência. “Chegou uma época que minha garagem não tinha espaço para nada, de tanto livro. Minha esposa chegou a brigar comigo, porque a casa ficava uma bagunça”, brinca.

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Doações

As doações de livros ou revistas podem ser feitas na própria geladoteca ou, em caso de grandes quantidades, diretamente na Biblioteca Comunitária Josué de Castro. Os interessados em doar podem comparecer no local nas terças e quintas no período noturno e aos sábados, pela manhã. A biblioteca fica localizada Rua Morro do Peludo, S/N, Ouro Preto, Olinda.

Confira abaixo os locais que ficam localizados as Geladotecas:

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