Grupo oferece pré-vestibular gratuito para pessoas trans

Objetivo é ajudar a transformar a vida de transgêneros, que têm mais dificuldade no acesso ao sistema educacional

por Lara Tôrres sab, 05/08/2017 - 14:01
Chico Peixoto/LeiaJá Imagens Rávanny e Rafael fazem parte da equipe do curso Chico Peixoto/LeiaJá Imagens

Transgêneros são pessoas que não se identificam com o gênero que foi designado a elas de acordo com o sexo biológico. São homens que nasceram com um corpo social e biologicamente interpretado como feminino, ou mulheres que foram designadas como pertencendo ao sexo masculino. 

O preconceito da sociedade contra a população transgênero faz com que 73% das pessoas trans já tenham sofrido violência de gênero. Além disso, a negação do reconhecimento da identidade e do nome dessa parte da população gera problemas psicológicos e sociais, que muitas vezes afastam os transgêneros dos estudos e do mercado de trabalho. 

Essa realidade faz com que as pessoas trans tenham piores condições de educação e saúde, menor expectativa de vida, baixa renda e muitas vezes precisem recorrer a atividades ilegais, como a prostituição, para garantir o próprio sustento. 

Para tentar ajudar a mudar essa realidade, integrantes de um coletivo de jovens chamado Rua estão criando, em parceria com outras entidades, como o Fórum LGBT de Pernambuco, um curso preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). O “Educar e Transformar” tem prioridade para pessoas trans que queiram ingressar na universidade. 

Rávanny Landim é militante do coletivo Rua e uma das coordenadoras do curso. Ela explica que a ideia é fornecer aulões gratuitos aos sábados para os estudantes, abordando tanto os conteúdos que estão no programa dos exames quanto questões sociais e políticas através de oficinas ministradas pelos voluntários do projeto. Além disso, o acolhimento aos estudantes, pensando no empoderamento e respeito às vivências e identidades de cada estudante.  

Rafael Aldo é estudante de Licenciatura em Química na Universidade Federal de Pernambuco e decidiu se voluntariar para dar aulas no curso Educar e Transformar para ter uma experiência profissional com uma parcela da população com a qual ele, devido aos problemas sociais geram a exclusão de pessoas trans do ambiente escolar e acadêmico, nunca teve contato na escola ou na universidade. O incômodo de Rafael o levou a querer ser parte do processo de mudança, ajudando pessoas trans que querem ter um diploma universitário. 

Leonardo Tenório é um homem trans de 27 anos de idade que está inscrito no curso “Educar e Transformar”. Ele vai começar a cursar biomedicina na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) a partir da próxima segunda-feira (7) e quer estudar os conteúdos do Enem para tentar entrar em medicina. Apesar disso, a trajetória de Leonardo com os estudos, sendo um homem trans, não foi fácil. 

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A transexualidade foi descoberta pouco depois de concluir o Ensino Médio, por volta dos 18 anos de idade, em uma época que não havia muita facilidade para se obter informações a respeito de questões de gênero mesmo na internet. O preconceito e a falta de um ambiente acolhedor que respeitasse sua identidade fez com que Leonardo retardasse seu ingresso na universidade. 

“Na época que eu terminei o Ensino Médio a UFPE ainda não adotava o nome social e eu não queria estudar em um lugar onde eu iria ser desrespeitado e ofendido o tempo todo”, conta Leonardo, que ajudou a formular a resolução que a faculdade adota desde 2015 para permitir o uso do nome social para travestis e transgêneros. 

Para Leonardo, a quebra dos preconceitos e a inclusão das pessoas trans nas universidades, assim como a adequação do meio acadêmico à diversidade de gênero, é um fator importante para que as pessoas trans que hoje vivem em condições precárias e são postas à margem do convívio social possam melhorar de vida através da qualificação profissional e ascensão econômica.

Antes de ingressar no curso superior pela primeira vez, Leonardo iniciou uma trajetória de militância pelo Brasil, dando palestras, reunindo outros homens trans e contribuindo para a formulação de políticas públicas para a população trans. A rotina, no entanto, o impedia de ingressar na universidade. 

Algumas dificuldades financeiras fizeram com que Leonardo, que não tem mais contato com sua família, precisasse deixar o curso para trabalhar e poder se manter. Hoje, retomando os estudos, ele espera poder estudar contando com bolsas de assistência estudantil e com estágios em sua área de conhecimento. 

Como se Inscrever

As pessoas que se interessarem pelo cursinho popular com prioridade para estudantes transgênero devem se inscrever gratuitamente através do site do curso Educar e Transformar até a próxima quarta-feira (9). As aulas começam no próximo sábado (12) serão ministradas semanalmente, no centro do Recife, em local a ser confirmado pela organização do projeto. Estão sendo disponibilizadas, ao todo, 60 vagas. 

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