'Meu sonho era entrar na faculdade'

A frase remete à trajetória de luta de Josivânia, uma pernambucana que sempre alimentou a vontade de chegar à universidade

por Martina Arraes ter, 30/05/2017 - 11:51
Cortesia Josivânia finalizou a graduação em 2014 Cortesia

Por todos os caminhos que existem rumo a uma graduação, as dificuldades diminuíram para os que sonham em entrar em uma faculdade e ter formação superior. Mas nem sempre foi assim. A pernambucana Josivânia Phillipini, 31 anos, lutou muito até conseguir o tão desejado diploma. “Meu sonho era entrar em uma faculdade”, relembra. Hoje, formada em logística pela Faculdade Joaquim Nabuco, unidade Recife, atua em uma empresa do segmento há quatro anos. Segundo a profissional, a universidade teve um papel fundamental para a realização do seu sonho. 

Josivânia nasceu no município de Camocim de São Félix, no Agreste de Pernambuco. Filha de agricultores, precisou aprender a ter responsabilidade desde muito nova. Cuidava dos seis irmãos enquanto a mãe trabalhava durante o dia, e à tarde Josivânia ia para a escola. “Eu não tive infância. Nunca brinquei de boneca, nunca tive um brinquedo. Por ser uma das filhas mais velhas, cuidava da casa e dos meus irmãos. Lembro que minha mãe deixava um ‘banquinho’ perto do fogão para eu preparar o mingau deles. Só depois me dei conta do quão arriscado isso era”, conta. 

Diante daquela dura realidade, Josivânia viu que só iria mudar de vida se fosse em busca de conhecimento. “Aos 15 anos eu ‘fugi’ para Recife e fui morar com uma tia. Ouvi muito da minha mãe, ela não concordava, mas era o que eu queria. Por outro lado, minha tia disse que eu só poderia ficar se eu trabalhasse e foi isso que eu fiz”, relembra. Na capital pernambucana, começou a trabalhar como doméstica em uma residência. “No começo foi muito difícil, era outra realidade. Mas eu sou muito determinada e não desisti”, relata Josivânia.

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O esforço foi válido. Josivânia finalizou o período escolar e em 2012 ingressou no curso superior de logística. Bancou as mensalidades com o dinheiro oriundo do trabalho como doméstica e dedicou horas e horas da sua vida aos livros e trabalhos universitários. 

Para conciliar o trabalho puxado dos afazeres domésticos com os estudos, Josivânia teve que se desdobrar. Além de organizar a casa onde trabalhava, ainda cuidava de duas crianças, filhas de sua patroa. Em alguns momentos, chegou a desanimar, mas nunca pensou em desistir. Para estudar, ela usava as brechas de tempo que tinha durante o dia, já que aulas eram realizadas à noite. “Era muito complicado. Eu saía muito cedo de casa para trabalhar e voltava tarde da noite. Então qualquer ‘tempinho’ que eu tinha era para estudar. Muitas vezes quando eu conseguia sair cedo do trabalho, ia direto para faculdade ficar na biblioteca estudando, aproveitando aquele tempo antes do início das aulas”, ressalta.  

Embora tenha recebido o apoio da família, em alguns momentos a sua mãe, dona Severina Maria da Conceição, questionava se realmente todo aquele esforço valeria a pena. A agricultora chegou a chamar Josivânia várias vezes para voltar à casa em Camocim de São Félix. “Ela me perguntava sempre porque eu estudava tanto e se eu acreditava que minha vida mudaria com o estudo. Por muitas vezes eu deixei de ir visitar minha família em Camocim para ficar estudando e por continuar trabalhando como doméstica. Hoje eu sou a única filha formada e ela se orgulha demais por isso”.

A graduação foi o ponto transformador na vida de Josivânia. “Além de eu conhecer muitas pessoas, tive muitos professores que me incentivaram e me apoiaram. Isso abriu portas para minha vida profissional. Hoje eu trabalho no Grupo TPC, uma empresa nacional de logística, onde sou reconhecida. Tenho minha própria casa, sou casada e tenho uma filha, e ainda posso ajudar minha família no interior. Não foi fácil, mas tenho certeza que foi a melhor escolha que fiz na vida”, conta, emocionada.  A conclusão do curso ocorreu em 2014.

 

Matéria integra a série "Eles acreditaram na edução", do LeiaJá. As reportagens trazem histórias de pessoas que conseguiram ascenção social por meio do ensino superior. A seguir, confira as demais matérias:

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