Especialistas criticam preparatórios para o Supletivo

Para atrair alunos, escolas fazem propaganda enganosa e envolvem o MEC

por Adriana Cavalcante | qui, 26/04/2012 - 14:47
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Foto: Chico Peixoto LeiaJá/Imagem Especialistas criticam tempo recorde oferecido nos preparatórios para o exame do Supletivo Especialistas criticam tempo recorde oferecido nos preparatórios para o exame do Supletivo

Por Alexandra Gappo e Nathan Santos, com a colaboração de Evelyne Cavalcanti

Já pensou em completar três anos de estudo em apenas um mês? Ou melhor, em 15 dias? Os cursos preparatórios ao exame de supletivo, com essas propostas "mágicas", estão invadindo a cidade e atraindo, cada vez mais, jovens que não têm a oportunidade de terminar o 3° ano em escolas de ensino normal. A opção de ingressar em um programa que resume três anos em poucos meses ou dias é tentador. Mas será que vale a pena?

Diante de tantas propagandas e da grande quantidade de cursos oferecidos, existem alguns estabelecimentos que oferecem o serviço para ser concluído em apenas 15 dias, algo que alguns profissionais da área criticam radicalmente.  “O correto é realizar um supletivo em pelo menos dois meses. Tem curso que engana o público. É impossível formar alguém em 15 dias”, comenta o coordenador pedagógico do Centro de Concursos e Supletivos (CCS), Almir Mota.

Mas o próprio reconhece um erro de propaganda no seu curso que, segundo ele, já está sendo providenciada a correção. “Nós temos algumas propagandas com informação de que o nosso preparatório pode ser concluído em menos de um mês, mas isso foi um erro gráfico, e já estou corrigindo tudo”, afirma Mota. Por semestre, são formadas turmas de 80 a 100 alunos no CCS. 

Propaganda enganosa - Ao contrário do que se pode constatar em muitos outdoors, as escolas que oferecem supletivos não recebem autorização do Ministério da Educação. O MEC não responde pelos ensinos médio ou fundamental, que são de responsabilidade da Secretaria Estadual de Educação (SE) e do Conselho Regional de Educação (CRE). O MEC responde apenas pelo ensino superior. “Não há nenhuma autorização do MEC para esses cursos de supletivo que vemos por ai, pois simplesmente não é necessário", afirma Ângela Fernandes, chefe de unidade da Gerencia de Orientação e Normalização da Secretaria de Educação do Estado. Por isso, os supletivos são chamados de "cursos livres". Mas o coordenador do CCS, Almir Mota, admite a existencia, de fato, das propagandas enganosas, como estratégia de marketing. “É tudo fantasia para dar mais moral aos cursos”, revela.

Vale ressaltar, ainda, que qualquer que seja o curso preparatório para o supletivo, ele não é pré-requisito para o candidato ao exame realizado pelo Centro Especial de Ensino Supletivo (CEESO). Qualquer pessoa, que tenha feito ou não um preparatório, pode solicitar o teste junto ao órgão. Faz-se necessário apenas que o estudante tenha, no mínimo, 15 anos para a prova de nível fundamental e 18 anos para de ensino médio.

Em Pernambuco, caso o estudante precise, em caráter de urgência, da ficha 19 ou do documento de comprovação de conclusão do ensino médio, para fins trabalhistas, ele poderá procurar o CEESO e solicitar a prova em caráter emergencial. “Esse exame é voltado para toda a população. Não precisa de curso e também não tem custo”, afirma a chefe da unidade da gerencia de orientação e normalização da Secretaria de Educação do Estado.

Na Paraíba, de acordo com o presidente do Conselho Estadual de Educação, José Francisco de Melo, a demanda é maior por exames. Muitas pessoas se deslocam para João Pessoa pela “pressa” de conseguir a documentação, já que na Paraíba, ao contrário do que acontece em Pernambuco, a oferta para a realização de exames ocorre de duas a três vezes por ano, onde escolas da rede privada também oferecem o serviço. “Aqui na Paraíba há as provas do setor público e as do setor privado", declara José Melo. Todas são autorizadas pelo Conselho Estadual - a exemplo da Interativo Colégio e Curso Supletivo 2001, Escola Menino Jesus, no município de Queimadas e CA Patos, no município de Patos no interior do Estado.

Mercado de Trabalho -   A “facilidade” de adquirir a ficha 19, documento que comprova a conclusão de ensino médio, para finalmente ingressar em uma faculdade, alimenta a esperança de entrar rapidamente no mercado de trabalho. O estudante Emmanuel França, de 21 anos, acha que após o curso preparatório conseguirá várias oportunidades de trabalho. “Ainda estou no 2º ano do ensino médio e quero fazer logo o meu supletivo. Tenho certeza que terei espaço no mercado de trabalho após o curso”, afirma.

De acordo com Ana Teresa Almeida, sócia e gerente da empresa de RH, Fator Humano, as companhias não costumam pedir um comprovante de conclusão de ensino médio e levar em consideração onde o candidato estudou e em quanto tempo concluiu, como geralmente acontece com o ensino superior. Mas, considera que “uma pessoa que fez um ensino médio em 15 dias, não terá a mesma desenvoltura que outro candidato que concluiu normalmente os três anos de estudo. E isso vai se refletir no desempenho no trabalho do profissional”, declara.

De acordo com a profissional, especializada em recrutamento, nos dias de hoje as vagas para atendente de consultório médico e escritórios de advocacia, por exemplo, exigem que o candidato tenha, pelo menos, uma graduação e um curso de línguas ou técnico. A gerente de RH explica ainda, que as oportunidades que surgem para pessoas com apenas o ensino médio incompleto, são escassas. “A grande quantidade de vagas são para nível técnico e superior, mas quando aparecem para médio, são de menor complexidade. São atividades onde não é preciso usar o raciocínio”, ressalta.

Para a pedagoga e coordenadora do curso de pedagogia da Faculdade Joaquim Nabuco, Roberta de Assis (foto acima), os rápidos cursos preparativos não ajudam o aluno. Embora os exames supletivos sejam importantes na vida de qualquer jovem que precise de uma alternativa e uma esperança para ingressar no mercado de trabalho.  “Eu sou a favor de tudo que leva as pessoas para a educação. Se o indivíduo precisa de um supletivo para trabalhar, eu acho que ele deve sim fazer a prova. Isso depositar uma esperança na vida”,frisa.

Especialistas dão dicas e fazem outros comentários sobre os cursos preparatórios em vídeo. 

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